A Fermentação do Caxixi no Ensino de Química em Escolas Indígenas 

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A Fermentação do Caxixi no Ensino de Química em Escolas Indígenas 

Resumo 

A contextualização do ensino de Química é fundamental para tornar a aprendizagem mais  significativa. O Caxixi, bebida fermentada tradicional dos povos indígenas amazônicos,  representa uma excelente oportunidade pedagógica para trabalhar conteúdos químicos no  ensino médio. Seu preparo envolve processos como hidrólise do amido, ação enzimática  e fermentação alcoólica. Este artigo discute como a fermentação do Caxixi pode ser  utilizada como recurso didático no ensino de Química em escolas indígenas, valorizando  os saberes tradicionais e aproximando a ciência da realidade dos estudantes. 

Introdução 

O ensino de Química, muitas vezes, é visto como distante do cotidiano dos alunos. Em  escolas indígenas, esse distanciamento pode ser ainda maior quando os conteúdos não  dialogam com a cultura local. O Caxixi, bebida tradicional produzida a partir da mandioca  e da batata-doce, faz parte da vivência de muitas comunidades amazônicas e pode ser  utilizado como ponto de partida para o estudo da fermentação. 

Ao analisar a produção do Caxixi, o estudante compreende que processos químicos estão  presentes em práticas culturais do seu próprio povo. Assim, tradição e ciência passam a  caminhar juntas no processo educativo. 

O Caxixi e sua Base Química 

O principal ingrediente do Caxixi é a mandioca, rica em amido, um polissacarídeo  formado por unidades de glicose, representado pela fórmula geral: 

(C6H10O5)n 

Para ocorrer a fermentação, esse amido precisa ser transformado em açúcares simples. A  batata-doce também contribui com carboidratos e outros compostos orgânicos que  alimentam os microrganismos responsáveis pela fermentação. 

Algumas variedades de mandioca possuem compostos tóxicos, como o cianeto, que são  eliminados pelo cozimento. Esse cuidado tradicional mostra um conhecimento empírico  de processos químicos de desintoxicação. 

A Hidrólise do Amido no Preparo

Antes da fermentação propriamente dita, ocorre a quebra do amido em glicose por meio  da hidrólise: 

(C6H10O5)n + nH2O → nC6H12O6 

O calor e a água favorecem essa reação. Além disso, a mastigação tradicional adiciona  enzimas da saliva, como a amilase, que atuam como catalisadores biológicos, acelerando  a transformação do amido em açúcares menores. Esse momento permite ao professor  discutir conceitos de cinética química e ação enzimática. 

A Fermentação do Caxixi 

Após a liberação dos açúcares, inicia-se a fermentação. Microrganismos, principalmente  leveduras, utilizam a glicose como fonte de energia, produzindo etanol e gás carbônico: 

C6H12O6 → 2C2H5OH + 2CO2 

Além do álcool, são formados ácidos orgânicos que diminuem o pH da mistura, deixando  o Caxixi com sabor característico e aumentando sua conservação. Nesse ponto, é possível  trabalhar conceitos como reações químicas, funções orgânicas, soluções e acidez. 

O Ensino de Química a Partir da Fermentação 

A fermentação do Caxixi permite abordar diversos conteúdo do ensino médio, como: • carboidratos e funções orgânicas; 

  • reações químicas; 
  • pH e soluções; 
  • enzimas e catalisadores; 
  • transformações da matéria; 
  • estequiometria básica. 

Além disso, o aluno percebe que a Química não está apenas no laboratório, mas também  nas práticas culturais de sua comunidade. 

Aplicação em Sala de Aula 

O professor pode trabalhar o tema por meio de: 

  • observação do preparo tradicional do Caxixi; 
  • entrevistas com membros da comunidade; 
  • simulações de fermentação com frutas; 
  • medições de pH antes e depois do processo;
  • observação da liberação de gás carbônico. 

Essas atividades tornam o aprendizado mais concreto e valorizam o conhecimento  indígena como parte da ciência. 

Conclusão 

A fermentação do Caxixi é um recurso pedagógico poderoso para o ensino de Química  em escolas indígenas. Ela conecta cultura e ciência, facilita a compreensão dos conteúdos  e fortalece a identidade dos estudantes. Ao reconhecer o saber tradicional como  conhecimento científico aplicado, o ensino torna-se mais significativo, respeitoso e  contextualizado. 

Palavras-chave 

Caxixi; Fermentação; Ensino de Química; Escolas Indígenas; Educação Contextualizada.

Professor de Química – Escola Indígena Estadual Jorge Iaparrá, Aldeia Benoá,  Oiapoque/AP.

Os pontos de vista expressos neste artigo são de responsabilidade do(a) autor(a).