Resumo
O presente artigo analisa a importância dos jogos pré-desportivos como instrumentos pedagógicos fundamentais para o aprimoramento da prática esportiva e o desenvolvimento integral de crianças e jovens. Através de uma revisão bibliográfica fundamentada em teóricos do desenvolvimento humano e da pedagogia do esporte, discute-se como essas atividades lúdicas facilitam a transição entre o brincar espontâneo e a prática esportiva formalizada. Os jogos pré-desportivos permitem que o aluno experimente fundamentos técnicos e táticos de diversas modalidades de maneira simplificada e prazerosa, evitando a especialização precoce e promovendo a inclusão. Os resultados indicam que a utilização sistemática desses jogos nas aulas de Educação Física e em escolinhas de esportes contribui significativamente para a melhoria da coordenação motora, da tomada de decisão e da socialização, consolidando-se como uma estratégia indispensável para a formação de praticantes mais competentes e motivados.
Palavras-chave: Jogos pré-esportivos. Educação Física. Iniciação esportiva. Inclusão. Desenvolvimento motor.
Abstract
This article analyzes the importance of pre-sport games as fundamental pedagogical instruments for improving sports practice and the integral development of children and young people. Through a bibliographic review based on theorists of human development and sports pedagogy, it is discussed how these playful activities facilitate the transition between spontaneous play and formalized sports practice. Pre-sport games allow students to experience technical and tactical fundamentals of different sports in a simplified and enjoyable way, avoiding early specialization and promoting inclusion. The results indicate that the systematic use of these games in Physical Education classes and sports schools significantly contributes to the improvement of motor coordination, decision-making, and socialization, consolidating them as an indispensable strategy for the training of more competent and motivated practitioners.
Keywords: Pre-sport games. Physical Education. Sports initiation. Inclusion. Motor development.
1. Introdução
A prática esportiva contemporânea muitas vezes enfrenta o desafio da especialização precoce, que impõe exigências técnicas e físicas desproporcionais à maturidade dos praticantes iniciantes. Nesse cenário, os jogos pré-desportivos emergem como uma alternativa metodológica essencial, servindo como uma ponte entre o universo lúdico da infância e a complexidade dos esportes institucionalizados. Definidos como atividades que adaptam regras, espaços e materiais das modalidades esportivas tradicionais, os jogos pré-desportivos visam o ensino de fundamentos básicos sem a rigidez competitiva extrema.
A relevância deste tema reside na necessidade de humanizar o ensino do esporte, garantindo que o aprendizado ocorra de forma progressiva e significativa. Segundo Goulart (2018), esses jogos são estratégias fundamentais para desenvolver não apenas habilidades motoras, mas também competências cognitivas e afetivas. O problema central que este artigo busca abordar é como a ludicidade presente nos jogos pré-desportivos pode potencializar o desempenho técnico futuro, ao mesmo tempo em que preserva o prazer pela prática física.
Historicamente, o esporte foi ensinado através da repetição mecânica de gestos técnicos, o que frequentemente levava ao desinteresse e à exclusão daqueles com menor aptidão inicial. A introdução dos jogos pré-desportivos subverte essa lógica, priorizando a compreensão do jogo e a experimentação motora diversificada. Assim, o objetivo deste trabalho é demonstrar, por meio de embasamento teórico e análise pedagógica, que o jogo pré-desportivo é a ferramenta mais eficaz para a iniciação esportiva de qualidade.
2. Desenvolvimento
O embasamento teórico dos jogos pré-desportivos encontra sustentação nas principais teorias do desenvolvimento humano. Jean Piaget, ao discutir a importância do jogo na construção do conhecimento, afirma que “o jogo é a ferramenta pela qual a criança assimila o mundo exterior ao seu próprio eu”. Na perspectiva piagetiana, os jogos de regras, que sucedem os jogos simbólicos, são fundamentais para a socialização e para o entendimento de normas coletivas, elementos intrínsecos a qualquer modalidade esportiva. Ao praticar um jogo pré desportivo, a criança está, na verdade, realizando um processo de acomodação e assimilação de novos esquemas motores e táticos.
Complementarmente, Lev Vygotsky destaca o papel do jogo na criação da Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP). Para Vygotsky (1984), “no brinquedo, a criança sempre se comporta além de sua idade habitual, acima de seu comportamento diário; no brinquedo, é como se ela fosse maior do que é na realidade”. Esta afirmação é crucial para entender os jogos pré desportivos: ao simplificar as regras de um esporte como o voleibol ou o basquetebol, o professor permite que a criança atue em um nível de complexidade que ela ainda não dominaria no esporte formal, impulsionando seu desenvolvimento motor e cognitivo de forma segura e estimulante.
A dimensão cultural e filosófica do jogo é magistralmente explorada por Johan Huizinga em sua obra Homo Ludens. Huizinga argumenta que o jogo é anterior à própria cultura e que o elemento lúdico é o que confere sentido às atividades humanas. No contexto esportivo, o autor observa que, à medida que o esporte se torna excessivamente profissionalizado e técnico, ele corre o risco de perder sua essência lúdica. Os jogos pré-desportivos atuam justamente no resgate dessa essência, garantindo que a técnica não sufoque o prazer.


Do ponto de vista prático, os jogos pré-desportivos oferecem benefícios tangíveis em diversas áreas, conforme detalhado na tabela abaixo:
| Área de Desenvolvimento | Benefícios dos Jogos Pré-Desportivos |
|---|---|
| Motor | Melhora da coordenação motora ampla, equilíbrio, agilidade e percepção espaço-temporal |
| Cognitivo | Desenvolvimento do raciocínio tático, compreensão de regras e capacidade de tomada de decisão rápida. |
| Socioafetivo | Estímulo ao trabalho em equipe, respeito aos adversários, cooperação e controle emocional. |
| Técnico | Aprendizado de fundamentos (passe, drible, arremesso) de forma contextualizada e menos estressante. |
A transição para o esporte formal deve ser um processo gradual. Brito e Brandl (2012) ressaltam que o conhecimento do intuito do jogo e o modo de execução das ações técnico táticas são melhor absorvidos quando apresentados de forma recreativa. Por exemplo, um jogo de “queimada” pode ser um excelente pré-desportivo para o handebol, pois trabalha o arremesso, a esquiva e a noção de campo, sem a pressão de um jogo oficial. Da mesma forma, jogos de “bobinho” no futebol aprimoram o passe e a visão de jogo de maneira dinâmica.
Além disso, a inclusão é um pilar central dos jogos pré-desportivos. Em uma aula pautada apenas no esporte de rendimento, os alunos menos habilidosos tendem a ser marginalizados. Já nos jogos pré-desportivos, a flexibilidade das regras permite que todos participem ativamente. O professor, como mediador, tem a liberdade de adaptar o jogo para que o desafio seja proporcional à capacidade de cada estudante, mantendo a motivação em níveis elevados.

A eficácia dessa ferramenta também se reflete na saúde a longo prazo. Ao proporcionar experiências positivas com o movimento desde cedo, os jogos pré-desportivos combatem o sedentarismo e criam uma base sólida para que o indivíduo continue praticando esportes na vida adulta. A especialização precoce, por outro lado, está frequentemente associada a lesões por esforço repetitivo e ao burnout esportivo, levando muitos jovens a abandonarem a prática física precocemente.
3. Conclusão
Conclui-se que os jogos pré-desportivos representam muito mais do que simples “brincadeiras” preparatórias; eles são a base pedagógica sobre a qual se constrói uma prática esportiva consciente, técnica e prazerosa. A fundamentação em teóricos como Piaget, Vygotsky e Huizinga demonstra que o ato de jogar é intrínseco ao desenvolvimento humano e que o esporte, quando despido de sua rigidez formal na fase de iniciação, torna-se uma ferramenta poderosa de educação e saúde.
A implementação desses jogos permite que o aluno desenvolva um repertório motor diversificado, essencial para qualquer modalidade que venha a escolher no futuro. Além disso, os ganhos sociais e cognitivos, como a capacidade de trabalhar em grupo e a inteligência tática, extrapolam as quadras e campos, contribuindo para a formação de cidadãos mais críticos e colaborativos. Portanto, é imperativo que profissionais de Educação Física e treinadores valorizem e utilizem os jogos pré-desportivos como o principal recurso metodológico em suas intervenções, garantindo que o esporte cumpra seu papel transformador na sociedade.
Referências Bibliográficas
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DARIDO, S. C.; RANGEL, I. C. A. Educação física na escola: implicações para a prática pedagógica. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2015.
GOULART, A. R. Jogos pré-desportivos e ludicidade no ensino do esporte. Curitiba: Appris, 2018.
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KUNZ, E. Transformação didático-pedagógica do esporte. 8. ed. Ijuí: Unijuí, 2014.
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PIAGET, J. A formação do símbolo na criança. Rio de Janeiro: Zahar, 1978.
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VYGOTSKY, L. S. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1984.


