Os Processos Químicos na Produção do Beiju e o Conhecimento Ancestral dos Povos  do Oiapoque 

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Os Processos Químicos na Produção do Beiju e o Conhecimento Ancestral dos Povos  do Oiapoque 

O beiju indígena é muito mais do que um alimento tradicional. Para os povos do  Oiapoque — Galibi Kali’na, Galibi Marworno, Karipuna e Palikur — ele representa  cultura, identidade e resistência. Produzido a partir da mandioca, o beiju carrega técnicas  ancestrais que hoje podem ser compreendidas pela Química no ensino médio

Levar o beiju para a sala de aula é transformar a cultura em laboratório vivo, mostrando  aos estudantes que a química indígena também é ciência. 

A mandioca e os processos químicos naturais 

Grande parte da mandioca utilizada nas aldeias é a mandioca brava, que possui  substâncias chamadas glicosídeos cianogênicos, principalmente a linamarina. Essas  substâncias funcionam como defesa da planta, mas são tóxicas para o ser humano. 

Quando a raiz é ralada, uma enzima natural entra em ação e libera o ácido cianídrico  (HCN), conhecido como veneno. Esse composto pode impedir que as células do corpo  utilizem oxigênio, causando intoxicações. 

De forma simples: 

Linamarina + água → glicose + acetona cianidrina
Acetona cianidrina → acetona + HCN (gás) 

Por isso, a mandioca não pode ser consumida crua. O mais interessante é que o  conhecimento tradicional indígena desenvolveu, há séculos, formas eficientes de  eliminar esse veneno. 

Ralação, tipiti e fermentação da puba 

O processo começa com a colheita e a lavagem da mandioca. Depois vem a ralação, que  quebra as células da raiz e permite que parte do HCN se libere. 

Em seguida ocorre a prensagem no tipiti indígena. Ao apertar a massa, sai a manipueira,  líquido que carrega grande parte do cianeto solúvel em água. Essa etapa é essencial para  a segurança alimentar

Muitas famílias realizam ainda a fermentação da mandioca, conhecida como puba.  Durante alguns dias, microrganismos naturais transformam o amido em açúcares e depois  em ácidos. O pH da massa diminui, facilitando a degradação do veneno e a liberação do  HCN para o ambiente. 

Além de tornar o alimento seguro, a fermentação melhora o sabor e a conservação do  beiju. Trata-se de uma verdadeira aplicação da bioquímica indígena.

O papel do calor na produção do beiju 

Depois da prensagem e da peneiração, a massa ou a goma vai para a chapa quente, forno  de barro ou folha de bananeira. Nesse momento ocorre a gelatinização do amido

Com o aumento da temperatura, as moléculas de amido absorvem água, se reorganizam  e formam um gel que dá estrutura ao alimento: 

Amido + água + calor → gel de amido 

Esse processo deixa o beiju de mandioca firme, crocante por fora e macio por dentro.  No caso do alipá, o beiju grosso dos Galibi Kali’na, a fermentação anterior ainda valoriza  o sabor e aumenta a durabilidade. 

Beiju, química e educação indígena 

O preparo do beiju mostra que o saber indígena é ciência aplicada. Nele encontramos: • Detoxificação química natural da mandioca. 

  • Uso de microrganismos na fermentação
  • Controle do calor e da estrutura do amido

Mesmo com desafios, como pragas que afetam as roças de mandioca no Oiapoque, as  comunidades continuam preservando seus modos de fazer e multiplicando manivas. 

Quando o aluno percebe que a Química está presente em sua cultura, o ensino se torna  mais significativo e fortalece a identidade dos povos indígenas. 

O beiju como ciência viva 

Ensinar Química por meio do beiju é mostrar que os povos indígenas sempre produziram  conhecimento. Antes dos laboratórios, já existiam tecnologias naturais para transformar  a mandioca em alimento seguro e saudável. 

O beiju indígena do Oiapoque continua sendo símbolo de resistência, cultura e ciência  viva nas aldeias. 

Palavras-chave 

Beiju indígena; mandioca; química indígena; fermentação da puba; tipiti; manipueira;  ensino de química; educação indígena; povos do Oiapoque; Galibi Kali’na; Karipuna;  Palikur; Galibi Marworno; processos químicos da mandioca; segurança alimentar  indígena.

Professor de Química – Escola Indígena Estadual Jorge Iaparrá, Aldeia Benoá,  Oiapoque/AP.

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