Resumo
O presente artigo discute o uso do jenipapo (Genipa americana L.) como recurso pedagógico no ensino de Química na educação escolar indígena, a partir da experiência desenvolvida com estudantes do Ensino Médio da Escola Indígena Estadual Jorge Iaparrá, situada na Aldeia Benoá, em Oiapoque (AP). Tradicionalmente utilizado pelo povo Karipuna na pintura corporal, o fruto da genipa apresenta relevância cultural, simbólica e química devido à presença da genipina, composto que reage com o oxigênio e com aminoácidos da pele, formando pigmentos azul-escuros. A proposta metodológica articula saberes tradicionais e conhecimento científico por meio de atividades teórico-práticas que envolvem a extração da tinta, a observação da mudança de cor e a discussão de conceitos como oxidação, interações moleculares e polimerização. Os resultados evidenciam maior engajamento discente e aprendizagem significativa quando os conteúdos de Química são contextualizados na realidade cultural local. Conclui-se que a integração entre cultura e ciência fortalece o ensino de Química e valoriza a identidade Karipuna no ambiente escolar.
1. Introdução
A educação escolar indígena no Brasil fundamenta-se na valorização das culturas, línguas e formas próprias de conhecimento dos povos originários, buscando articular saberes tradicionais e científicos no processo educativo. Nesse contexto, a contextualização dos conteúdos curriculares torna-se essencial para promover aprendizagens significativas.
Na Aldeia Benoá, localizada no município de Oiapoque (AP), o povo Karipuna mantém práticas culturais ancestrais que podem ser incorporadas ao ensino como estratégias pedagógicas. Entre essas práticas, destaca-se o uso do jenipapo (Genipa americana L.)
na produção de tinta para pintura corporal, utilizada em rituais, festividades e processos de cura.
Além de seu valor simbólico e cultural, a genipa apresenta relevância química, especialmente pela presença da genipina, substância responsável pela formação do pigmento azul-escuro. Assim, o estudo desse material tradicional possibilita trabalhar conteúdos de Química de forma contextualizada, aproximando ciência e cultura. O objetivo deste artigo é apresentar a extração da cor da genipa como estratégia didática para o ensino de Química no Ensino Médio da Escola Indígena Estadual Jorge Iaparrá.
2. Fundamentação cultural e científica da genipa
O jenipapo é uma árvore da família Rubiaceae, amplamente distribuída na região amazônica. Seu fruto é utilizado tanto na alimentação quanto na produção de pigmentos naturais. Para o povo Karipuna, a pintura corporal com jenipapo não possui apenas função estética, mas expressa identidade, proteção espiritual e conexão com os ancestrais.
Do ponto de vista químico, o principal composto de interesse é a genipina, um iridoide que, ao ser liberado do fruto, reage com o oxigênio do ar e com grupos amina (-NH₂) presentes nos aminoácidos da pele, especialmente da queratina. Essa reação resulta na formação de polímeros escuros, responsáveis pela coloração azul-preta observada após a aplicação da tinta.
Esse fenômeno permite abordar conceitos como reações de oxidação, ligações covalentes, interações moleculares e formação de pigmentos, conteúdos fundamentais no currículo de Química do Ensino Médio.
3. Metodologia
A proposta desenvolvida caracteriza-se como uma experiência pedagógica de abordagem qualitativa. As atividades foram realizadas com estudantes do Ensino Médio da Escola Indígena Estadual Jorge Iaparrá, na Aldeia Benoá.
Inicialmente, promoveu-se uma roda de conversa com estudantes e membros da comunidade para levantamento dos saberes tradicionais relacionados ao uso do jenipapo.
Em seguida, os alunos participaram do processo de extração da tinta, envolvendo a colheita do fruto, raspagem da casca, fervura em água e posterior filtragem.
Após a aplicação da tinta na pele, os estudantes observaram a mudança gradual de cor. Em sala de aula, discutiram-se os processos químicos envolvidos, relacionando a prática cultural aos conceitos científicos de oxidação, interações químicas e polimerização. Os alunos registraram observações e participaram de debates orientados.
4. Resultados e discussão
A utilização do jenipapo como recurso didático contribuiu significativamente para o engajamento dos estudantes nas aulas de Química. A observação direta da transformação da cor possibilitou compreender, de maneira concreta, fenômenos químicos que normalmente são apresentados apenas de forma abstrata.
A reação da genipina com os aminoácidos da pele e com o oxigênio explica a durabilidade da tinta, permitindo discutir a formação de ligações químicas estáveis e processos de polimerização. Essa abordagem favoreceu a compreensão dos conteúdos curriculares e estimulou a curiosidade científica.
Além do aprendizado conceitual, observou-se valorização da cultura local, pois os estudantes reconheceram que os saberes tradicionais do povo Karipuna possuem fundamento científico. A atividade promoveu a interdisciplinaridade entre Química, História, Arte e Meio Ambiente, fortalecendo o protagonismo indígena no espaço escolar.
5. Considerações finais
A experiência com a genipa evidencia que a integração entre saberes tradicionais e ciência constitui uma estratégia eficaz para o ensino de Química na educação escolar indígena. O uso do jenipapo como recurso pedagógico torna a aprendizagem mais significativa, contextualizada e culturalmente sensível.
Conclui-se que práticas culturais, como a pintura corporal com jenipapo, podem ser incorporadas ao currículo como instrumentos de valorização da identidade Karipuna e de fortalecimento do ensino de Ciências e Química no Ensino Médio.
Referências
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