A visão de Vigotski sobre a influência do brinquedo no desenvolvimento da criança

pessoas.

Vigotski brinquedo da criança

Ana Dionozia De Souza Aquino

Ludmilla Paniago Nogueira

Neide Figueiredo de Souza

Para Vigotski (1998a, p. 121), não há como ignorar “[…] o fato de que o brinquedo preenche necessidades da criança”, tudo aquilo que é para a criança, motivos para ela agir, sempre ligado à sua maturação. A princípio, segundo o autor, a criança é imediatista em realizar seus desejos; no entanto, já no início da idade pré-escolar, ela cria um mundo imaginário e ilusório, no qual busca realizar seus desejos irrealizáveis por meio do brinquedo. Por intermédio de seus estudos, mostra-nos “[…] que toda situação imaginária contém regras de uma forma oculta, e […] que todo jogo com regras contém, de forma oculta, uma situação imaginária” (VIGOTSKI, 1998a, p. 126). Afirma, por fim, que a capacidade da criança em lidar com jogos de regras claras e com situações imaginárias ocultas ou jogos com situações imaginárias às claras e regras ocultas, mostra a “evolução do brinquedo das crianças” (VIGOTSKI, 1998a, p. 126).

Vigotski (1998a) considera que é “enorme a influência do brinquedo no desenvolvimento de uma criança” (p.126). Já noutra31 tradução do autor, encontra-se que na

[…] idade pré-escolar32, emergem duas questões fundamentais: a primeira delas é o modo como a própria brincadeira surge ao longo do desenvolvimento, o aparecimento da brincadeira, sua gênese; a segunda questão diz respeito ao papel que essa atividade desempenha no desenvolvimento da criança na idade pré-escolar. […] a brincadeira […] é a linha principal do desenvolvimento pré-escolar (VIGOTSKI, 2008b, p.24a).

Com relação à questão do surgimento da brincadeira na criança, o autor alerta que não devemos intelectualizá-la, como se a brincadeira fosse somente uma necessidade intelectual dela, tentando, assim, classificá-la em determinados estágios de desenvolvimento. Para o autor, é preciso considerar

[…] as necessidades e as inclinações da criança, seus impulsos, os motivos e sua atividade, sem o que, como demonstra o estudo, nunca ocorre a passagem da criança de um estágio para o outro. […] qualquer deslocamento, qualquer passagem de um estágio etário para outro relaciona-se à mudança brusca dos motivos e dos impulsos para a atividade (VIGOTSKI, 2008b, p.24b).

O autor exemplifica dizendo que os interesses, as necessidades e os motivos com que um bebê brinca deixam de interessar à criança na primeira infância, quando surgem novos motivos para a brincadeira. E que, consequentemente, são outros, para a criança na idade pré-escolar. “[…] Na primeira infância, a criança manifesta a tendência para a resolução e a satisfação imediata dos desejos” (VIGOTSKI, 2008b, p.25a). Para essa criança não há futuro, não há adiamento de realização de desejos, tudo tem de ser satisfeito imediatamente, é um caminho muito curto entre o desejo e sua realização. Já, na criança pré-escolar, surgem

[…] necessidades específicas, impulsos específicos que são muito importantes para o desenvolvimento da criança e que conduzem diretamente à brincadeira. Isso ocorre porque, na criança dessa idade, emerge uma série de tendências irrealizáveis, de desejos não realizáveis imediatamente. […] Parece-me que, se na idade pré-escolar não houvesse o amadurecimento das necessidades não realizáveis imediatamente, então, não existiria a brincadeira (VIGOTSKI, 2008b, p.25a).

O autor destaca que a brincadeira não acontece somente quando a criança está com seu desenvolvimento intelectual insatisfatório, também, quando o é na esfera afetiva. A criança na idade pré-escolar cria formas específicas de resignar, substituir desejos não satisfeitos e, a partir dos três anos, “[…] emergem tendências específicas e contraditórias, de um modo diferente” (VIGOTSKI, 2008b, p. 25b), havendo a necessidade de realização imediata dos desejos, decorrente do estágio anterior, mas, ao mesmo tempo, emerge a necessidade do desejo não realizado imediatamente; e é aqui, que, segundo o autor, surge a brincadeira nas crianças desse estágio,

[…] que deve ser sempre entendida como realização imaginária e ilusória de desejos irrealizáveis. […] A imaginação é o novo que está ausente na consciência da criança da primeira infância, absolutamente ausente nos animais, e representa uma forma especificamente humana de atividade da consciência; e, como todas as funções da consciência, forma-se originalmente na ação (VIGOTSKI 2008b, p. 25b).

Como afirma o autor, a “essência da brincadeira é que ela é a realização de desejos, mas não de desejos isolados e sim de afetos generalizados” (VIGOTSKI, 2008b, p. 26a). No entanto, afirma que esses afetos generalizados da criança pré-escolar não são atividade consciente, ou seja, ela não tem consciência do porquê brinca. “[…] Os motivos pelos quais a brincadeira é inventada” não é algo entendível pela criança de forma consciente. “[…] Ela brinca sem ter a consciência dos motivos da atividade da brincadeira” (VIGOTSKI, 2008b, p. 26b). E é onde reside a riqueza da brincadeira, ela não deve ser uma ação intencional, pensada pelo adulto a ser executada pela criança. Para o autor é isso que faz a brincadeira diferir do trabalho, que é uma ação, atividade intencional.

A influência da brincadeira imaginária para o desenvolvimento da criança pré-escolar “é enorme”; é uma nova forma de atividade que inexistia nas crianças de até três anos. Nessa forma de brincadeira, segundo o autor, ocorre a libertação das crianças das amarras situacionais; é quando acontece a separação do objeto com seu significado, ou seja, ela consegue atribuir a um objeto outro significado, mas, ainda, esse objeto deve manter relação com o que ela quer que ele signifique. Por exemplo, ela consegue associar a um cabo de vassoura à ação do cavalo, pois pode montá-lo, já não consegue atribuir a uma folha de papel, a função de cavalo; pois não conseguiria exercer, com ele, a ação de cavalgar.

Inicialmente, a criança pequena, até 02 ou 03 anos, age segundo a percepção direta do objeto, de acordo com o significado da situação; já em crianças pré-escolares, o objeto e o significado se separam. Para o autor, essa separação não é tarefa fácil, é “[…] tremendamente difícil” (VIGOTSKI, 2008b, p. 30) e é onde entra a brincadeira como forma de transição para isso. Este é um momento que o autor considera “crítico”, pois “[…] modifica-se radicalmente uma das estruturas psicológicas que determinam a relação da criança com a realidade, mais precisamente, a estrutura da percepção” (VIGOTSKI, 2008b, p. 30b).

A princípio, a percepção se constrói no sentido literal das coisas, dos objetos, nominamos os objetos para que a criança construa os conceitos das coisas, por exemplo, o que é um cavalo, um relógio etc. A relação dos objetos predomina sobre o que significam, adiante, quando a criança consegue separar o objeto do seu significado, nesse momento crítico, a relação semântica passa a predominar.

Para finalizar, em Vigotski, há três questões consideradas importantes com relação à brincadeira.

Destaco, na primeira questão, segundo o autor, que a “[…] a brincadeira não é um momento predominante no desenvolvimento da criança; e sim o principal” (VIGOTSKI, 2008b, p. 34a); não ser predominante significa dizer que a criança não passa a maior parte de seu tempo na brincadeira. Alerta o autor, dizer que ela fica a maior parte de seu tempo na brincadeira é completamente sem fundamentos. No entanto, dizer que a brincadeira é a atividade principal significa dizer que é ela quem determina o desenvolvimento da criança. Por meio dela, são produzidas novas formas de comportamento, de apropriação de cultura, o desenvolvimento histórico, a formação de funções psíquicas superiores.

Enfim, entender o desenvolvimento da criança significa entender como brinca, pois ela apresenta três níveis de representação enquanto brinca, segundo Vigotski.

No primeiro nível, a criança brinca daquilo que vivencia, “[…] Essas crianças começam a brincar do que, na realidade fazem; pelo visto, criando outras relações, aliviando com isso a realização de uma ação desagradável” (VIGOTSKI, 2008b, p. 34b). O autor exemplifica dizendo que crianças que têm de ir dormir, e não o querem fazer, resolvem brincar de dormir, mas a ação é feita no sentido de refazer, recriar a ação que dela se espera.

Para o autor, nesse momento, na primeira infância, é muito mais uma recordação do que imaginação, do que situação imaginária; a criança repete o que vivenciou e o que, por exemplo, sua mãe fez com ela, ou, “recordação da ação”. E acrescenta: “[…] a brincadeira da criança de até três anos de idade tem um caráter de brincadeira séria, […]. A brincadeira séria da criança na primeira infância consiste em que ela brinca sem diferenciar a situação imaginária da situação real” (VIGOTSKI, 2008b, p. 36b). Ou ainda, a situação imaginária é muito próxima da situação real. Nesse princípio, a regra está comprimida, numa posição primária. No entanto, segundo o autor, sempre há objetivos na brincadeira.

Num segundo nível do desenvolvimento da brincadeira, há a predominância da situação imaginária. Segundo Vigotski (2008b), a brincadeira é uma especificidade da criança pré-escolar, no sentido de que é nesse período que a criança brinca em situações imaginárias, por meio do faz de conta.

Para o autor, a brincadeira

[…] cria uma zona de desenvolvimento iminente na criança. Na brincadeira, a criança está sempre acima da média da sua idade, acima de seu comportamento cotidiano; na brincadeira, é como se a criança estivesse numa altura equivalente a uma cabeça acima de sua própria altura. […] Por trás da brincadeira estão as alterações das necessidades e as alterações de caráter mais geral da consciência. A brincadeira é fonte de desenvolvimento e cria a zona de desenvolvimento iminente. […] A criança é movida por meio da atividade de brincar. Somente nesse sentido a brincadeira pode ser denominada de atividade principal, ou seja, a que determina o desenvolvimento da criança (VIGOTSKI, 2008b, p. 35a).

A brincadeira possibilita a criação de situações imaginárias e que podem ser analisadas no sentido de indicarem um caminho para o desenvolvimento do pensamento abstrato, por meio das regras, que podem permitir à criança entender a separação entre afazeres cotidianos e a brincadeira, o que ocorrerá na idade escolar.

No terceiro nível, mais para o final do desenvolvimento da brincadeira, ocorre “[…] o movimento que vai da predominância da situação imaginária para a predominância das regras” (VIGOTSKI, 2008b, p.34). Afirma o autor, que é nesse nível que “[…] aparece a regra e, quanto mais rígida, mais adaptação exige da criança; quanto mais regula a atividade da criança, mais tenso e acirrado torna-se o jogo” (VIGOTSKI, 2008b, p. 35b). Por fim, acrescenta, “[…] o resultado é um sentimento de satisfação” (VIGOTSKI, 2008b, p. 36). Por isso, a criança maior, por volta dos sete anos, gosta de cumprir as regras, de competir e de ganhar, não basta mais somente brincar; no entanto, há a necessidade de acompanhar este processo, para que se dê de forma adequada, a criança já entende e sabe cumprir regras.

Outra questão que o autor traz sobre a brincadeira, e que nos ajuda a entender o desenvolvimento da criança, refere-se as “[…] reestruturações internas que a brincadeira provoca no desenvolvimento da criança” (VIGOTSKI, 2008b, p. 34a). Ou seja:

Qual é o gênero das alterações de comportamento da criança que a brincadeira produz? Na brincadeira a criança é livre, ou seja, ela determina suas atitudes, partindo do seu “eu”. Mas uma “liberdade” ilusória. A criança submete suas ações a um determinado sentido, ela age, partindo do significado do objeto. A criança aprende a ter consciência de suas próprias ações, a ter consciência de que cada objeto tem um significado (VIGOTSKI, 2008b, p. 36).

A brincadeira pode ser, nesse sentido, um caminho para o desenvolvimento do pensamento abstrato; e a desenvolver ações que possibilitem, à criança, perceber a diferença entre brincadeira e afazeres cotidianos.

REFERÊNCIAS

VIGOTSKI L.S, LURIA A.R, LEONTIEV A.N. Linguagem, desenvolvimento e aprendizagem. 11ª Ed. São Paulo: Ícone, 2010.

VIGOTSKI, L.S. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

VIGOTSKI, L.S. Pensamento e linguagem. São Paulo: Martins Fontes, 2008a.

VIGOTSKI. L. S. A brincadeira e o seu papel no desenvolvimento psíquico da criança. In: Revista Virtual de Gestão de Iniciativas Sociais. Nº 08. Abril de 2007. Publicada Junho de 2008b. Educação Infantil. Rio de Janeiro: UFRJ. Tradução de Zoia Prestes.

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