O desenho como forma da criança compreender o mundo  

pessoas.

Ana Dionizia de Souza Aquino

Ludmilla Paniago Nogueira

Neide Figueiredo de Souza

A possibilidade de adentrar a este mundo imaginário do desenho da criança, que a princípio nos parece estranho, às vezes incompreensível, e ao mesmo tempo desconhecido, precisamos embarcar nesse samba criado pela criança, e nos entregar por completo para as novas possibilidades de ver o mundo, por ângulos jamais vistos. Pois a imaginação da criança possibilita a esta criar e recriar cenas aparentemente já vistas, de infinitas formas e cores, e é nessa relação que o adulto concebe a essência da sua linguagem gráfica, o desenho.

Precisamos vivenciar esta linguagem tão presente e apaixonante no mundo infantil e adquirir um novo olhar sobre a sua experiência gráfica, pois são muitas as inquietações que afloram o nosso pensamento sobre o desenho infantil, mas uma pergunta em especial paira no ar: Qual o significado do desenho para a criança? Quando pensamos no desenho infantil, precisamos ter em mente que, para a criança, o desenho é um meio de expressão. Nele a criança comunica os seus gostos, desejos, vontades, dúvidas e também apresenta sua própria maneira de compreender e interpretar o mundo ao seu redor. Desta forma, ao desenhar, a criança revela parte daquilo que já internalizou enquanto vivências significativas a ela, pois em cada experiência gráfica, a criança nos conta quem ela é, o que está pensando e também expressa a sua subjetividade e a maneira pela qual se sente existir.

Portanto, a criança desenha como forma de expressão e de realização de suas emoções e sentimentos, o que para Derdyk (1993), o ato de desenhar é acima de tudo,

(…) um jogo que não exige companheiros, onde a criança é dona de suas próprias regras. Nesse jogo solitário, ela vai aprender a estar só, “aprender a só ser”. O desenho é o palco de suas encenações, a construção de seu universo particular. (DERDYK, 1993, p.10).

Neste contexto íntimo apontado pela autora, constatamos que o desenho infantil é muito particular além de subjetivo, pois cada criança tem o seu modo de transpor para o papel algo que tenha significado e relevância para ela. Por isso,

neste grande cenário de representações, ela percebe que pode inventar e nomear as suas próprias regras, reinventar os seus personagens, e mesmo sozinha, descobre que tem a capacidade de criar e se expressar à sua maneira.

O desenho não é apenas uma atividade gráfica, mas essencial para uma criança, ele suscita risos, provoca encantos e desencadeia sinais de alegria. Assim, o desenho infantil é um dom saído de suas próprias mãos e de que ela espera um cumprimento ou um julgamento, pois a criança desenha por seu próprio prazer e para dar prazer a alguém. A criança espera que o seu desenho seja valorizado por quem o aprecia, muitas vezes, ela dedica e compartilha o seu desenho para quem está mais próximo dela, seja um ente querido, seu amigo preferido, alguém imaginário, enfim, a sua representação gráfica é uma forma de comunicação entre a criança e as pessoas que estão ao seu redor.

É mister que o desenho faz parte da vida de qualquer criança, pois este manifesta o desejo de representar, mas também, ele é, segundo Derdyk (1993, p. 51), antes de qualquer coisa, “alegria, é curiosidade, é afirmação, é negação. Ao desenhar, acriança passa por um longo processo vivencial e existencial”. Partindo desse pressuposto, ressalto que o desenho revela muito de seu autor, ele desenha para falar de si, dos outros, das suas brincadeiras, dos seus gostos, de seus medos, para contar e externalizar as suas descobertas e as suas vivências.

Compreender o processo, de que para a criança, não existe somente o desenho no papel, há também uma nuance neste, o espaço, o ambiente os personagens e os fatos, conforme contribui Moreira, (2009), é parte do desenho,

(…) a maneira como organiza as pedras e as folhas ao redor do castelo de areia ou como organiza as panelinhas, os pratos, as colheres na brincadeira da casinha. (…) o traço no papel ou em qualquer superfície, mas também a maneira como a criança concebe o seu espaço de jogo com os materiais de que dispõe. (MOREIRA, 2009, p. 16).

A partir das contribuições da autora, vimos  que por meio do  desenho a criança organiza seu pensamento e estabelece relações com as vivências sociais. Portanto, as crianças utilizam a sua imaginação para sempre inventar e modificar os suas criações artísticas, criando sucintamente o inesperado, o novo, o diferente. É claro que a ação do desenho permite à criança, inventar, criar e recriar,

além de que é o caminho inicial para a atividade gráfica, que é motivada

essencialmente pela vontade e pelo desejo da criança em se expressar. E é esse prazeroso cenário gráfico, que segundo Leite, (2003, p. 141), incide em, “ir, vir, nomear, desenhar, olhar, rabiscar, narrar, colorir, cantar, mexer que faz com que o sujeito recrie, a todo instante, o significado do mundo em que se insere”. A autora descreve a criança, enquanto sujeito ativa e participe do seu mundo, e é por meio do desenho, e através desta linguagem, que ela tem a possibilidade de criar uma nova realidade a cada instante.

Se para nós o desenho é uma atividade indecifrável, “(…) provavelmente para a criança, naquele instante, qualquer gesto, qualquer rabisco, além de ser uma conduta sensório-motora, vem carregado de conteúdos e de significações simbólicas”. (DERDYK, 1993, p.57). O desenho configura-se como um campo de possibilidades e significações para a criança, que confronta o real com o imaginário. E nestas relações vão brotando as representações e um repertório de significados que irão se modificar e se transformar em grandes realizações. Não imaginemos  uma criança que não desenha, pois toda criança traz consigo a sua marca, o seu desenho. Como afirma Albano, “toda criança desenha” (2009, p.15). O desenho faz parte de sua essência, decifra o que transparece no seu interior, no seu pensamento, assumindo assim um papel importante de comunicar o que muitas vezes ela não consegue falar e descrever com palavras momentos significativos  para ela.

O desenho nada mais é para a criança, do que seu próprio canal de expressividade, pois por meio deste, ela desenha a sua vida, e também se aventura em outras linguagens, recriando o seu espaço lúdico, se afirmando como pessoa humana.

REFERÊNCIAS

 DERDYK, E. Formas de pensar o desenho. São Paulo: Scipione, 1989.

MOREIRA, A. A. A. O espaço do desenho: a educação do educador. São Paulo: Loyola, 1984.

Os pontos de vista expressos neste artigo são de responsabilidade do(a) autor(a).