De Volta À Mairi: A Fortaleza de Macapá Reintegrada no Mito Wajãpi

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Wajãpi
Wajãpi (Foto: Marcio Ferreira)

Introdução

Os Wajãpi, etnia indígena que vive no Amapá há pelo menos três séculos, afirmam que a Fortaleza de São José de Macapá é uma “casa de pedra/argila” construída não por portugueses, mas pelo próprio deus-criador deles, Ianejar. À essa casa de argila, eles chamavam de Mairi.

Segundo a tradição oral Wajãpi, o mundo é destruído ciclicamente pelo deus Ianejar, seja por meio de dilúvios, do fogo, entre outros cataclismos. Para proteger a “verdadeira humanidade” (os Wajãpi), Ianejar construiu uma casa de pedra (em outras versões do mito ela é de argila) chamada de Mairi para que os Wajãpi não fossem mortos por esses cataclismos.

Isso está na tradição oral dessa etnia pesquisada há mais de quatro décadas por antropólogos diversos, especialmente por Dominique Gallois. A reintegração/associação da Fortaleza de Macapá com a narrativa sobre Mairi tem um contexto histórico: após o contato com a Funai nas décadas de 1970/1980, ao visitar Macapá e ao se defrontarem com a Fortaleza de São José, os Wajãpi não tiveram dúvidas: ali estava a Mairi, a casa feita pelo “nosso dono” (iane = nós; jar = dono) no tempo dos seus ancestrais, para protegê-los da destruição do mundo.

No encontro com a Fortaleza de São José de Macapá, o passado para os Wajãpi, recobrado pela memória daquilo que falavam os seus pais e avós, ou seja, sua tradição oral, era acionado para dar conta, explicar e tornar inteligível os eventos que se apresentavam a eles no tempo presente.

Nesse sentido, o contato dos Wajãpi com a Fortaleza de São José de Macapá na década de 1980 os autorizou a falar de uma “volta” à Mairi, a partir da perspectiva de pensamento cíclica que caracteriza a lógica de interpretação do presente/passado das sociedades indígenas.

O fio condutor da proposta da obra é justamente colocar a temática indígena em evidência a partir da conexão entre a mitologia indígena Wajãpi, a história e ensino de história.

Justificativa

Existe um debate acadêmico que já ocorre há tempos, sobre os silenciamentos e preconceitos que a História impôs sobre os grupos indígenas, suas histórias, culturas e suas narrativas sobre o passado. Existe uma fortuna crítica importante sobre o chamado “imperialismo da História”, expressão cunhada por Paul Veyne (1988) e que se refere à História (com maiúscula e no singular) de tradição iluminista, evolucionista, linear, que vê as sociedades indígenas vivendo na “infância” da humanidade.

Antropólogos, historiadores e especialistas de áreas afins têm escrito e debatido sobre essa posição cristalizada nas ciências humanas: os povos de tradição intelectual ocidental têm história e os povos nativos não têm história, uma vez que não possuem escrita. Essa posição é real e formada ao longo da experiência do aluno, na educação básica e na universidade.

Dos livros didáticos escolares até a bibliografia acadêmica/universitária, as referências são a Europa. É aquilo que hoje chamamos de “visão do colonizador”. Nesse sentido, a construção de imagens, discursos e representações sobre os indígenas é de longa data. São representações que colocam o português como o protagonista da História do Brasil.

E sem dúvida que a colonização portuguesa, assim como o Império e a República brasileiros, fizeram um esforço muito grande para silenciar (com genocídio e etnocídio) as histórias e as culturas indígenas. Quando tiveram que inseri-lo na formação da sociedade brasileira a partir do século XIX (a historiografia brasileira que seguia os cânones estabelecidos pelo IHGB) foi uma inserção-exclusão: eles estão na história apenas como contraponto, um modelo a não ser seguido, posto que são destituídos de “civilização”, não cabendo a eles o papel de protagonistas, mas de acessórios, apensos ao “rio caudaloso” da civilização portuguesa/brasileira (expressão de Karl von Martius e da sua vitoriosa dissertação Como se deve escrever a História do Brasil/1844: “o sangue português, em um poderoso rio, deverá absorver pequenos confluentes das raças índia e etiópica”).

Nesse sentido, os currículos de história entendiam que esses povos estavam “fora” da História (tradicionalmente entendidas como sociedades sem escrita, nômades e que vivem da caça e coleta), naquilo que chamávamos de “pré-história”. As narrativas míticas Wajãpi (a narrativa de Mairi, por exemplo) e dos povos indígenas em geral, são entendidas como “invenção”, folclore, fábula.

Em nosso estado, o Amapá, o ensino de história obedece a currículos com ideias cristalizadas, embarcando discussões que não fogem do eurocentrismo. Lutas e conquistas à parte, quando olhamos rapidamente os sumários da maioria dos livros didáticos de história hoje em dia, regionais ou não, dificilmente conseguimos ver outra coisa a não ser o modelo do quadripartismo francês, adotado desde o século XIX para a história como componente curricular.

Estão lá, ainda, vivos, nossa genealogia civilizacional, nossa gênese, que tanto orgulha professores da história clássica, nascida na Grécia e em Roma. E vem evoluindo no tempo até chegar nas sociedades democráticas em que vivemos atualmente. Lendo esses livros, a Antiguidade Clássica ainda é o nosso berço.

Sendo retratados pela falta (sem leis, sem civilização, sem governo, sem escrita), as sociedades indígenas são, de modo geral, descontextualizadas pelos manuais didáticos, ao mesmo tempo que os relatos dos viajantes muitas vezes naturalizam a visão do europeu conquistador.

Aqui, voltamos à questão tão debatida sobre a situação e o futuro dos indígenas no Brasil. A (in)visibilidade e a intenção de assimilar (e apagar) as culturas e histórias desses povos na sociedade nacional marca as relações das sociedades indígenas com os não indígenas no Brasil há muito tempo: desde Varnhagen (1981), que disse não haver história para as sociedades indígenas, apenas etnografia, a invisibilidade, o genocídio e o etnocídio se construíram na história do país de maneira intencional, negando aos indígenas seu protagonismo, sua capacidade de agenciamento, suas terras, sua cultura, enfim, negando seu estatuto de sujeitos históricos.

De modo geral, para a intelligentsia brasileira tradicional, desde o século XIX, o futuro dos indígenas não era promissor, sendo natural o seu desaparecimento ou a sua assimilação pelos não indígenas. No entanto, os indígenas brasileiros não desapareceram. Ainda, cresceram demograficamente: segundo dados do IBGE, hoje somam mais de um milhão de pessoas, com crescimento em relação ao último censo.

O crescimento demográfico dos Wajãpi em suas terras demarcadas mostra, por um lado, a força desse povo na luta pela evolução e sobrevivência de sua etnia, e que organizada politicamente, defendeu seu território e tem afirmado sua autodeterminação pela valorização de suas tradições culturais, entre as quais está a tradição oral, especialmente suas narrativas míticas que dão conta das concepções sobre a origem e a ordem do universo.

Por outro lado, tornar relevante a temática indígena no ambiente escolar não é ser contra conteúdos que fazem referência à Europa. Que se esclareça que o problema não é a Europa. O problema, nesse caso, é estudar de modo geral, apenas a Europa ou aquilo que está em conexão com a cultura ocidental, judaico-cristã.

Sem dar espaço para outras lógicas, outras histórias e outras perspectivas de pensamento que escapem do cânone racional e científico, os currículos ficam engessados naquilo que podemos chamar, muito apropriadamente, de currículo hegemônico.

Já demos passos importantes na discussão sobre a temática indígena na escola. Desde os anos 2000 a legislação brasileira (Lei 10.639/2003 e Lei 11.645/2008) têm buscado inserir no contexto escolar temas e grupos sociais que antes eram negligenciados, motivada sobretudo pela pressão dos movimentos sociais, dos movimentos indígenas e pelas novas abordagens no estudo dessas sociedades feitas por antropólogos e historiadores.

Os estudos antropológicos favoreceram a emergência de uma nova perspectiva no trato com a temática indígena a partir da década de 1960. O fortalecimento do movimento indígena na década de 1980 no Brasil bem como o marco legal estabelecido pela Constituição de 1988 também são apontados como os fatores do desencadeamento de novas abordagens nos estudos que tratam sobre os povos nativos do Brasil.

A proposta central da obra, portanto, está ligada com essa nova perspectiva e pretende ser um contraponto à lógica de exclusão, invisibilidade e preconceito em relação à temática indígena, seja no ambiente escolar ou na formação estudantil ao longo da experiência na educação básica.

Objetivo

Como entender a lógica do pensamento indígena Wajãpi que reintegra a Fortaleza de São José de Macapá na narrativa mítica de Mairi, sem que isso pareça absurdo ou que cause estranhamento? E de que forma recuperar essa experiência de apropriação que os Wajãpi fazem da Fortaleza de São José de Macapá pode ajudar o professor e seus alunos em sala de aula a reconhecer nas narrativas míticas uma forma de conhecimento que tem sua lógica e sua verdade para os grupos indígenas que as criam e recriam ao seu modo?

O objetivo central da proposta da obra é responder a essas questões, a partir das seguintes ações:

  • abordar as narrativas míticas Wajãpi no contexto escolar/pedagógico para não indígenas;
  • incluir os mitos no entendimento amplo, qual seja, a de uma forma de conhecimento fundamental para se entender os grupos indígenas em seus próprios termos.

A proposta da obra pretende analisar a construção de representações indígenas no contexto escolar, cristalizada e enviesada e problematizar a invisibilidade indígena na sociedade brasileira/amapaense. Além disso, pretende-se colocar o mito como chave de interpretação da perspectiva indígena sobre a realidade.

A manutenção da invisibilidade indígena (ou a perspectiva eurocêntrica sobre os coletivos indígenas) na sociedade brasileira/amapaense tem um impacto negativo nas representações feitas sobre os “índios”. Essa (in)visibilidade tem como consequência o empobrecimento da discussão sobre a temática indígena em sala de aula ou no contexto pedagógico, especialmente no que diz respeito ao lugar comum hoje ocupado pela percepção das narrativas míticas indígenas como “lenda” dentro do ambiente escolar.

A proposta da obra, portanto, busca compreender as narrativas míticas como forma de conhecimento, indo além da visão eurocêntrica que as classifica como “lendas” ou “ficções”. A abordagem une história, antropologia e ensino de história e busca promover o protagonismo indígena e uma inserção contextualizada das histórias e culturas indígenas no ambiente escolar/pedagógico.

Em última análise, é propor que se entendam as narrativas míticas em seus próprios termos, ou seja, compreender as narrativas míticas como forma de conhecimento e o que essas narrativas significam nas sociedades em que são criadas e recriadas.

Metodologia

A obra adota um diálogo interdisciplinar entre textos historiográficos, antropológicos e um corpus narrativo, explorando a tradição oral dos Wajãpi sobre a Fortaleza de São José de Macapá, reinterpretada como “Mairi”. Realiza-se um levantamento das narrativas míticas Wajãpi e sua relevância simbólica na cultura, considerando a importância da tradição oral.

Resultados

Os Wajãpi reinterpretam a Fortaleza de Macapá como uma “casa de argila” feita pelo deus Ianejar para proteger sua comunidade dos cataclismos cíclicos, mostrando uma relação ancestral com o local. Essa reintegração de Mairi evidencia a lógica própria de pensamento indígena.

Ao adotar uma visão mais inclusiva e contextualizada sobre as narrativas Wajãpi, a obra propõe um ensino de história que reconheça o protagonismo desses povos e seus discursos culturais.

A Lei 11.645/2008 foi um avanço importante, mas ainda é necessário dar passos para pensar o currículo de História inclusivo, reforçando a importância de representar a contribuição das culturas e histórias indígenas.

No Brasil existem mais de um milhão de indígenas. A maior parte desse contingente está na Amazônia. A visibilidade desses grupos nos livros didáticos é urgente. Em termos regionais, ou melhor, em “termos amazônicos”, estudar as sociedades indígenas se faz necessidade urgente e obrigatória.

Precisamos nos ver nos livros didáticos. Precisamos entender as relações de trocas culturais que nos caracterizam, tributárias em larga medida da cultura indígena.

Ao lançar mão do estudo das narrativas míticas indígenas, pode-se fazer uma abordagem adequada para que o professor (re)pense a abordagem hegemônica e eurocêntrica sobre a temática indígena, desconstrua a invisibilidade dessas sociedades e promova o entendimento do Outro dentro do espaço escolar, juntamente com seus alunos.

As narrativas míticas indígenas são um lugar privilegiado para se entender essas sociedades em seus próprios termos. Ela é uma ferramenta importante para situarmos o protagonismo indígena, sua riqueza e sofisticação cultural, reconhecendo-se, em consequência disso, seu lugar de sujeitos históricos.

Palavras-chave

Narrativas Míticas; História Indígena; Ensino de História; Eurocentrismo; Currículo

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