Neutralidade no ensino? Uma armadilha a ser superada para promover a paz no espaço escolar

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A defesa de um ensino neutro não se sustenta quando compreendemos que a prática docente não se isenta de valores ético-políticos, uma vez que possui a responsabilidade pedagógica de fortalecer a criticidade, a curiosidade, a criatividade e a insubmissão do educando e da educanda, para que sejam cidadãos/ãs autônomos/as e agentes de transformação de uma realidade marcada por injustiças e violências. Essa compreensão contribui para que a escola, bem como a docência, pense e desenvolva estratégias formativas voltadas à promoção de uma cultura de paz que impacte positivamente o ambiente escolar.

A ideia de neutralidade constitui uma armadilha ideológica que não apenas aprisiona grandes possibilidades criativas, como também integra um projeto ético-político voltado à exploração do capital e à manutenção das estruturas de violência. Conforme afirma Freire, “creio que nunca precisou o professor progressista estar tão advertido quanto hoje em face da esperteza com que a ideologia dominante insinua a neutralidade da educação” (Freire, 2021, p. 128). Portanto, quanto mais essa falácia é repetida e naturalizada, mais se mantêm as miopias em relação às opressões.

Por isso, a docência, bem como a instituição de ensino que busca promover espaços de cultura de paz no ambiente escolar, precisa assumir o ensino como uma responsabilidade ético-política, alinhada a um projeto de sociedade e à defesa de valores humanísticos e libertadores em todos os processos formativos. De fato, se a ideia de neutralidade se constitui como algo perigoso, o educador e a educadora devem assumir uma posição diante dela, por meio de práticas pedagógicas que imprimam ações e orientações ressignificativas frente aos problemas da violência, os quais não podem ser negados. Isso implica superar soluções vagas que silenciam os conflitos, os preconceitos, o racismo, a homofobia, enfim, todas as formas de exclusões visíveis e invisíveis presentes no cotidiano escolar. Como afirma Freire, “para que a educação fosse neutra era preciso que não houvesse discordância nenhuma entre as pessoas com relação aos modos de vida individual e social…” (Freire, 2021, p.157) o que, humanamente, não é possível.

Se almejamos uma paz autêntica no ambiente escolar, precisamos superar a ideia de que o ensino deve ser neutro, pois se trata de uma armadilha ideológica daqueles que defendem uma educação acrítica e domesticadora, com o objetivo de manter o status quo das injustiças e das violências, sejam elas relacionais e institucionais, sejam estruturais (Silva; Pinto; Lima, 2025). Uma paz autêntica não silencia as violências, mas as evidencia e busca resolvê-las; não nega os conflitos, mas os problematiza sob uma perspectiva de mudança profunda. Como proposta para o ensino básico, sugerimos a leitura do nosso ebook intitulado “ENSINO E PRÁXIS DIALÓGICA: Possibilidades prático-reflexivas no Ensino Médio Integrado para uma cultura de paz, (Silva, Pinto, 2025)” disponível em https://zenodo.org/records/16749136. Embora voltada para a Educação Profissional e Tecnológica poderá ser utilizada em outras modalidades e categorias educacionais.

REFERÊNCIAS

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa [recurso eletrônico]. 1. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2021.

SILVA, Francisco Ernande Arcanjo; PINTO, Nilson Vieira. Ensino e práxis dialógica: possibilidades prático-reflexivas no Ensino Médio Integrado para uma cultura de paz. 1. ed. Salvador: Editora Humanize, 2025. Disponivel em: https://zenodo.org/records/16749136. Acesso em 15 out. 2025.

SILVA, Francisco Ernande Arcanjo; PINTO, Nilson Vieira; LIMA, Patrícia Ribeiro Feitosa. Diálogos para uma cultura de paz na Educação Profissional e Tecnológica: um ensaio reflexivo sob a luz da práxis dialógica freireana. In: CONEDU – Educação profissional e tecnológica (Vol. 3). Campina Grande: Realize Editora, 2024. Disponível em: https://editorarealize.com.br/artigo/visualizar/119446. Acesso em 15 out. 2025.

Mestrado em Educação Profissional e Tecnológica (IFCE), graduando em Letras – Português (UFC), licenciado em Formação Pedagógica em História (FAEL) e bacharel em Serviço Social (FATENE). Possui especializações em: Paulo Freire e a Pedagogia Libertadora; Ensino de Ciências Humanas; Psicologia da Aprendizagem, do Desenvolvimento e da Personalidade; Neurociências do Comportamento; Direitos Humanos; e Educação a Distância 4.0.

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