O desenvolvimento da psique da criança na visão de Alexei Nikolaevich Leontiev

pessoas.

Ana Dionísia de souza Aquino

Ludmilla Paniago Nogueira

Neide Figueiredo de Souza

Alexei Nikolaevich Leontiev (1903-1979), importante psicólogo soviético, por suas contribuições, ajuda a entender “[…] o desenvolvimento do psiquismo humano e a cultura […] a evolução das funções psíquicas e a assimilação individual da experiência histórica” (LEONTIEV, 2010a, p.12).

Para o autor, o desenvolvimento da criança é influenciado pelas “circunstâncias concretas de sua vida” (LEONTIEV, 2010a, p. 59). É por meio da “atividade […], sobretudo, em seus jogos” que, para o autor, é muito mais que “[…] manipulação de objetos” que a criança assimila e penetra no mundo que a cerca; é por meio dos objetos que ela “reproduz ações humanas com eles”, de um mundo que lhe é objetivo.

Ainda citando esse autor, é na idade pré-escolar que o “[…] mundo da realidade humana que cerca a criança abre-se cada vez mais para ela. […] a criança penetra num mundo amplo, assimilando-o de forma eficaz” (LEONTIEV, 2010a, p. 59); ela consegue agir sobre o mundo objetivo, constituído de objetos humanos e reproduz ações humanas com eles. Como exemplo, diz: a criança “[…] guia um ‘carro’, aponta uma ‘pistola’, embora seja realmente impossível andar em seu carro ou atirar em sua pistola” de forma simbólica (LEONTIEV, 2010a, p. 59). Desejos que lhe são satisfeitos pela ação do adulto.

Antes desse período da idade pré-escolar, os jogos se restringem a manipulações dos objetos pela criança; o círculo social ainda é restrito, na escola maternal, a professora passa a fazer parte de um pequeno e íntimo círculo de contatos da criança, ao lado de seu pai, sua mãe e outras pessoas próximas e essas pessoas são as referências determinantes para as relações dessa criança com o resto do mundo.

Segundo Leontiev (2010), o desenvolvimento da psique de uma criança ou da atividade da criança (tanto interna como a aparente) é determinado diretamente por sua própria vida e do desenvolvimento dos processos reais e das condições dessa vida. “[…] A atividade como um todo não é construída mecanicamente” (LEONTIEV, 2010, p. 63), mas tem relação íntima com cada estágio de desenvolvimento da criança. Por isso, uma atividade pode ser a principal em determinado estágio de desenvolvimento psíquico da criança e não ser mais em outro estágio; ou seja, cada estágio de desenvolvimento apresenta um tipo preciso de atividade como sendo a principal.

Nesse sentido, para o autor, “[…] O que determina diretamente o desenvolvimento da psique de uma criança é sua própria vida e o desenvolvimento dos processos reais desta vida” (LEONTIEV, 2010a, p.63); ou seja, o processo é único, não passível de generalizações e padronização no desenvolvimento, ainda que esse seja permeado por linhas mestras, diretrizes que definem o desenvolvimento. O autor aponta para “estágios” indicando que cada um deles é caracterizado por determinados conteúdos. Assim, para “[…] estudar o desenvolvimento da psique infantil” é preciso entender, analisar “[…] o desenvolvimento da atividade da criança, […] baseado na análise de conteúdo da própria atividade infantil em desenvolvimento” (LEONTIEV, 2010, p. 63), em cada estágio.

O autor traz outra contribuição que julgo considerável para nós professores da Educação Infantil. Segundo ele, não são índices “puramente quantitativos” que definem critérios do que seja a atividade principal em cada estágio de desenvolvimento da criança, mas alerta que a “brincadeira”, a forma como a criança lida com o brincar são indícios de seu desenvolvimento. Segundo o autor, as crianças brincam nos diferentes estágios de desenvolvimento de uma mesma brincadeira, mas a relação que estabelecem é que difere nos diferentes estágios. Aponta, ainda, que as crianças começam a perceber que o lugar que ocupavam nas relações humanas não mais correspondem às suas potencialidades, esforçando-se para mudá-las e, nesse esforço, surgem novas motivações, novas necessidades, uma nova atividade principal,

A atividade principal é então a atividade cujo desenvolvimento governa as mudanças mais importantes nos processos psíquicos e nos traços psicológicos da personalidade da criança, em certo estágio de desenvolvimento (LEONTIEV, 2010a, p.65).

Também é significativo entender quando o autor nos alerta que, tanto o “conteúdo preciso em sua atividade principal”, como “certa sequência no tempo”, acompanham os estágios de desenvolvimento da psique infantil e o desenvolvimento psíquico como um todo; porém, dependem e são influenciados pelas condições concretas de vida de cada indivíduo.

Outro ponto notável da teoria de Leontiev, quando se refere aos estágios de desenvolvimento, é que, para ele, apesar de haver desdobramentos, ao longo do tempo, no que se refere aos estágios de desenvolvimento, os

[…] limites de idade, todavia, dependem de seu conteúdo e este, por sua vez, é governado pelas condições históricas concretas nas quais está ocorrendo o desenvolvimento da criança. Assim, não é a idade da criança, enquanto tal, que determina o conteúdo de estágio do desenvolvimento; os próprios limites de idade de um estágio, pelo contrário, dependem de seu conteúdo e se alteram pari passu com a mudança das condições histórico-sociais (LEONTIEV, 2010a, p. 65-66).

O autor destaca a importância do brinquedo como elemento que aponta para o estágio de desenvolvimento da psique da criança, a forma que ela se relaciona com ele, como brinca, define seu estágio de desenvolvimento; ou seja, a forma como lida com o mundo objetivo por meio do brinquedo.

Para entender a passagem de estágios, o autor acrescenta que, de forma geral, a criança começa a perceber que a forma com que lidava com o mundo das relações humanas não a satisfaz mais, não corresponde com suas potencialidades, e ela passaria para um novo estágio; que, segundo o autor, é acompanhado por “crises: crise dos três anos, crise dos sete anos, crise da adolescência” (LEONTIEV, 2010a, p. 67), sendo características de seu desenvolvimento e maturação interna e as contradições que encontra com o meio externo; ou seja, como lidar com as mudanças que lhe são impostas, de certa forma, pela maturação e ambiente, e as formas que usava para explicar a realidade não condizem mais com o que lhe é apresentado.

Na verdade, afirma o autor, não são as crises que são inevitáveis, mas os momentos críticos, as rupturas, as mudanças qualitativas; pois as crises apenas apontam para uma mudança forçada, que não aconteceu de forma acertada e que, ainda segundo o autor, são transições que não acontecem num estalar de dedos, precisam ser internalizadas e aceitas pela criança, por isso, levam tempo e variam de criança para criança. É fundamental que nós, professores, entendamos esse processo, não forçando a criança, respeitando seu desenvolvimento, seu percurso, mediando, orientando, mas nunca de maneira imposta.

Vale ressaltar que, para o autor, tanto as mudanças que são observadas nos processos de vida psíquica da criança, como os limites de cada estágio de desenvolvimento não são processos independentes, mas têm ligação entre si; ao que se acrescentam as mudanças intraestágios, que não se resumem a mudanças de ações, operações e funções; mas, sim, são mudanças de atividade como um todo.

Segundo Leontiev (2010), o surgimento da atividade (ações) na criança também passa por um processo de desenvolvimento. Inicialmente, vai de ações e atividades que têm seus motivos (estímulos) em si mesmos; por exemplo, ao avistar um objeto do mundo objetivo, ela age com ele, não para satisfazer uma necessidade sua, mas porque “o que a motiva a agir, […] é o conteúdo do processo real da atividade dada” (p.119), ou seja, o objeto em si a estimula a agir, por meio de uma brincadeira. A brincadeira da criança, no entanto, não é instintiva, o que a difere da atividade lúdica dos animais; a brincadeira é uma atividade humana, objetiva, porque é feita a partir da percepção que a criança tem do mundo objetivo, uma vez que, nesse início, a atividade-fim é a linha principal de desenvolvimento e não a brincadeira que é um processo secundário.

No período pré-escolar da infância, segundo o autor, “o brinquedo torna-se agora o tipo principal de atividade” (LEONTIEV, 2010, p. 120), uma vez que o mundo objetivo está se expandindo para a criança, tanto os objetos que ela opera, como aqueles operados pelo adulto. O fato de não conseguir operar ainda com os objetos do mundo do adulto, por sua incapacidade física, e, ao mesmo tempo, sentir-se desafiada a agir, ela busca resolver essas contradições por meio da atividade lúdica, do jogo, da brincadeira. Ela, então, age e se satisfaz. Nesse período, a atividade principal é a brincadeira. O que não significa dizer que é nessa atividade que a criança passa a maior parte de seu tempo, ela brinca, no máximo, três a quatro horas por dia. O autor alerta que não é a quantidade de tempo que determina que o brinquedo seja a atividade principal, mas é

[…] aquela em conexão com a qual ocorrem as mais importantes mudanças no desenvolvimento psíquico da criança e dentro da qual se desenvolvem processos psíquicos que preparam o caminho da transição da criança para um novo e mais elevado nível de desenvolvimento (LEONTIEV, 2010b, p.122).

Portanto, pode se perceber que o brincar não é algo definido, dado, pensado a priori por alguém a alguém, ele nasce da necessidade e do desejo de alguém, da criança; e enquanto educadora, preciso entender isso e saber como lidar com situações concretas na escola, como mediar esse campo, para que seja algo prazeroso, da vontade da criança e que a desenvolva. Seguindo com as contribuições de Leontiev, ele nos diz que “[…] o brinquedo é caracterizado pelo fato de seu alvo residir no próprio processo e não no resultado da ação, […] no fazer, […]. A fórmula geral da motivação dos jogos é ‘competir, não vencer’” (LEONTIEV, 2010b, p. 123). Por isso, segundo o autor, quando a vitória é mais importante que a participação, essa ação, esse jogo deixa de ser brincadeira. Mais uma vez, precisamos pensar em que atividades são ofertadas para as crianças, pensando em proporcionar materiais que sirvam para desenvolvê-las, entretê-las e, acima de tudo, que sejam prazerosas em si e por si, sem terem puramente, finalidades educativas.

Entendo que deve haver ação, envolvimento por parte da criança, deve ser algo que a instigou a querer saber, manipular, brincar. Não pode ser algo simplesmente dado, mas construído com a criança.

Enfim, é brincando que a criança aprende, descobre o mundo e consegue estabelecer relações com o outro e com o mundo.

LEONTIEV, A.N. Os princípios psicológicos da brincadeira pré-escolar. In: VIGOTSKI, Lev Semenovich, et all. Linguagem, Desenvolvimento e Aprendizagem. 11ª ed. São Paulo: Ícone, 2010b.

LEONTIEV, A.N. Uma contribuição à teoria do desenvolvimento da psique infantil. In: VIGOTSKI, L.S. et all. Linguagem, Desenvolvimento e Aprendizagem. 11ª ed. São Paulo: Ícone, 2010a.

LEONTIEV, LURIA, VIGOTSKI E OUTROS. Psicologia e Pedagogia – Bases epistemológicas da Aprendizagem e do Desenvolvimento. São Paulo: Centauro, 2005.

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